07/12/2009

SIDEWAYS

Sideways, "Entre Umas e Outras" comédia de 2004 dirigida por Alexandre Payne, ganhador do Oscar na categoria de melhor roteiro adaptado e do Globo de Ouro pelo melhor roteiro e melhor filme.

Miles (Paul Giamatti), recém separado, leva seu amigo Jack (Thomas Haden Church), prestes a se casar, para uma excêntrica viagem pelas vinículas da costa da Califórnia. Miles é um professor de ensino médio que tenta publicar seu livro intitulado "O dia Dia Depois de Ontem" para então deixar de lecionar na esperança "tornar-se" um escritor "de verdade". Amarga o término de seu casamento adotando uma postura depressiva e desesperançosa em relação a vida.

Jack é ator e emprestou a voz a alguns comerciais de sucesso, mas também não parece muito satisfeito com sua carreira aparentemente encalhada. Sendo esta a semana que antecede seu casamento ele pretende aproveitar ao máximo, não apenas os diferentes tipos de vinhos.

No início da viagem já temos uma amostra da interação dessas personalidades tão diferentes: conflitos, choques e muito humor. Jack está decidido a fazer com que o amigo se afaste, mesmo que momentaneamente, do luto mal elaborado que o deixa ancorado ao passado e Miles resiste à proposta até onde pode.

Prazeres conhecidos em ambientes controlados são uma boa opção para pessoas que estão muito machucadas emocionalmente. Experimentar as sensações que um bom vinho pode trazer não pressupõe grandes riscos. Já uma relação (amizade, namoro), quando bem sucedida, pode nos levar por caminhos ainda inexplorados.

A partir daqui, este texto pode ser inadequado para quem ainda não assistiu ao filme.

No início da viagem, durante a visita à primeira vinícula, Miles degusta um Pinot Noir ao lado de Jack, que imita os gestos básicos do amigo. Antes da prova ele observa a cor do vinho, a densidade, segue agitando levemente o copo em movimentos circulares para facilitar a oxigenação. Então inspira profundamente e relaciona o aroma com outros odores que lhe são familiares. Finalmente deixa o líquido na boca, para sentir o sabor e todas as sensações que aquele vinho pode oferecer.

A experiência é uma verdadeira relacão, com começo (expectativa, excitação), meio (os sentidos são invadidos) e fim (discrimana-se a vivência e esta é sempre singular). Quando finaliza o ritual olha para Jack, que encena acompanhar o amigo, mas a farsa logo termina quando Miles percebe que Jack estava mascando chicletes durante toda degustação.

E a viagem continua. Os amigos aventuram-se não apenas na descoberta de novos vinhos e seus sabores, mas vivem paralelamente duas experiências amorosas. Cada um degusta a sua maneira.

Jack
mantém o mesmo padrão de comportamento tanto ao mascar chicletes durante a degustação de vinhos (praticamente anulando a experiência) quanto ao fingir uma profundidade na nova relação. "Engole" o que este romance tem a oferecer sem nenhuma pausa para "oxigenação". Imagino que essa seria sua proposta, uma viviencia superficial, as pausas são da natureza de relações verdadeiras. É preciso de tempo para encontrar a "fermentação necessária" que caracteriza uma relação autêntica.

Já as longas pausas de Miles diante deste novo romance podem ser angustiantes para quem assiste. O filme levanta a reflexão sobre a importância da atitude de pararmos perante um evento significativo para que possamos vivenciá-lo integralmente. Em um diálogo muito bonito com Maya, vivida por Virginia Madsen, o vinho transforma-se em uma metáfora poética sobre a importância de habitarmos o único tempo possível, o agora:

"A Pinot é uma uva difícil de cultivar... a casca é fina, é temperamental... não é uma sobrevivente como a Cabernet, que pode crescer em qualquer lugar, mesmo negligenciada..."

"A Pinot precisa de cuidado e atenção,
só consegue crescer em locais bastante específicos... somente alguém que se dá ao trabalho de entender o potencial da Pinot pode fazê-la atingir seu grau máximo de expressão e então seus sabores são os mais sedutores, brilhantes, excitantes, sutis..."

Ou seja, só podemos ser e expressar nossas mais sutis e profundas características em determinadas circunstâncias, diante de uma pessoa que forneça segurança, acolhimento, compreensão. Um olhar interessado, apaixonado, que legitima e convida. Porém, a contemplação é apenas uma parte do processo, a outra é a ação, refere-se a possibilidade de dar vida e compartilhar o que antes era solitário e individual. Maya diz, como metáfora, a maneira com que Miles lidava com a própria vida e com o tempo:

"O que eu gosto em uma garrafa de vinho é o fato dela estar, de fato viva, ganhando complexidade até chegar no seu auge e então começar seu contínuo e inevitável declínio"


A dificuldade em superar certas perdas, em realizar o luto, uma passagem necessária para reestruturação pessoal e para significação do ocorrido, pode nos levar a um aprisionamento naquela vivência. Claro que há um sentido nesse ato, como o de proteger-se, poupar-se, até que encontremos uma maneira saudável de lidar com essa falta.

O perigo, nesse caso, seria a tentação de permanecer nesse estado "autista", onde há uma preferência em estabelecer relações com objetos (vinho, restaurante, livros, filmes) e afastar-se da convivência com outras pessoas, estabelecendo assim um novo padrão de vida possível.

Assim como o vinho, vivo e em constante movimento e transformação, a vida e suas possibilidades continuam. A difícil tarefa de estar no espaço e no tempo que pertencem ao "agora", sem perder de vista a reflexão necessária sobre o passado (que pode nos orientar no presente) bem como um planejamento suficientemente flexível para o futuro, é uma das mais difíceis equações que o ser humano deve realizar.
Pensar e agir no justo tempo pressupõe maturidade e só atingimos a maturidade depois de termos vivido uma experiência de entrega, cuidado, confiabilidade. Não escolhemos ou decidimos atingir esse estado, ele depende de um outro ser humano que nos possibilite o crescimento, afinal somos, a princípio, muito delicados e temperamentais.

Com o tempo o "sabor" das relações muda o "paladar" de cada um, mas nada muda a origem da uva, o que ela é essencialmente. Uma Pinot, por mais que o tempo passe, não se tornará uma Cabernet e vice e versa. Metaforicamente podemos pensar na procedência do vinho como nosso verdadeiro self . Este sempre estará lá, mais ou menos exposto, protegido ou não pelo falso self e algumas pessoas nos ajudaram e ajudarão a tocar essa nossa face muito de perto, deste contato nascem nossas experiências mais significativas e transformadoras.

O outro nos leva a profundidade do nosso ser. Nossas experiências tocam pontos antes obscuros e, não fosse por ela, para sempre intocados. A vivência da entrega e do processo de relaxamento na presença de outra pessoa pode ser dolorida, enriquecedora, prazerosa e despertar tantas emoções e sensações quanto for possível para um ser humano. Acredito que enquanto formos humanos essa é a única possibilidade de nos tornarmos, não mais bonitos ou felizes apenas, mas nos sentirmos reais.

03/12/2009

A ONDA

O filme alemão "A Onda", (Die Welle, 2008), estreou no Brasil em Outubro de 2009. Dirigido por Dennis Gansel é inspirado no livro baseado em fatos reais de Morton Rhue.

A trama gira em torno de um professor de história do ensino médio Rainer Wegner, interpretado por Jürgen Vogel , que é encarregado de transmitir aos seus alunos os princípios da Autocracia. Porém, quando tenta envolvê-los no tema por meio de leituras e discussões, se depara com adolescentes desinteressados e cansados deste método de ensino. Desta forma, ele decide propor uma vivência para que os alunos possam sentir o impacto de uma experiência totalitária em suas vidas. A partir daí, tanto o professor quanto os alunos iniciam uma perigosa experiência que colocará em risco tudo que sabem de si até então.

A partir daqui, este texto pode ser inadequado para quem ainda não assistiu ao filme.

Se pensarmos nos regimes e manifestações que se assemelham à Autocracia, como exemplo a Ditadura, a Monarquia, e outras doutrinas religiosas e filosóficas radicais, encontraremos alguns pontos em comum: A presença de uma figura modelo que possa servir de referência para seus “seguidores”, centralização do poder, censura, intolerância em relação as diferenças, disciplina rigirosa, entre outros.

Deste lado vamos encontrar os líderes e as pessoas que o apoiam, o auxiliam na tomada de decisões, fornecem informações. Dentre estes podemos supor que alguns sofrem de algum tipo de doença psicótica, com delírios de grandeza, onde a pessoa acredita, de fato, ser dotada de qualidades superiores, especiais e, geralmente, de origem sobrenatural ou religiosa.

Outros, com traços de psicopatia. A incapacidade de envolvimento, de nutrir sentimentos por outra pessoa, de sentir-se responsável emocionalmente pelo que pensa e faz. Existem também aquelas personalidades sedentas por poder exercitar um controle sádico (excitação com o sofrimento alheio).

Do outro lado vamos encontrar no perfil dos “seguidores”, como ilustra o filme, um um falso self no lugar do verdadeiro; falta de manifestações criativas em detrimento das adaptativas. Além disso, sensação de vazio, estrutura de personalidade frágil, melancolia, tédio e por aí vai.


Para quem deseja aprofundar-se neste tema, sugiro que tente colocar um pouco de lado o conceito pré estabelecido relativo a este tipo de manifestação. As opiniões a respeito de manifestações autoritárias variam muito, mas geralmente são bastante radicais, assim como o próprio sistema.

Uma questão que me parece relevante, em meio a tantas, seria a compreensão dos motivos que impulsionam uma pessoa a abrir mão de tudo que havia construído até então, como da família, do trabalho, da religião, de suas particularidades, enfim, de si fundamentalmente. Para isso deveremos buscar na matriz, o que leva uma pessoa a sentir a própria vida como tão insatisfatória, vazia, desprovida de sentido que o fato de demolir tudo que já estava erguido pode ser um verdadeiro alívio.

O filme retrata a vida de um grupo de adolescentes com histórias e famílias diferentes, mas com a fase de formação da própria identidade em comum, bem como uma insatisfação que os impulsiona a procurar uma maneira de equilibrar uma vida social, produtiva com suas idiosincrasias. Fase por si só já repleta de desafios, ainda assim a maioria passa para a fase adulta com o decorrer do tempo e com a integração dos novos elementos sociais, afetivos, culturais, etc.

A adolescência e tudo que a envolve, por si só, não tem o poder de definir uma postura tão particular quanto a do fanatismo. É preciso uma falha bastante precoce, em um período onde tanto a estrutura emocional, o alojamento da mente e do corpo e o início das funções mentais estão em plena formação.

A Onda retrata a vida de um grupo de estudantes da mesma sala de aula, mas apenas um deles com características que chamam muito atenção tanto pela voracidade com que se envolveu na proposta do professor quanto pela dificuldade em se relacionar, em fazer parte de um grupo.

O que este adolescente tinha de diferente dos outros? Uma família distante, pouco afetiva.

O que fez a diferença nesse caso, de fato, foi a maneira como a família apresentou-lhe o mundo. Vamos pensar, então, na primeira grande falha que poderia ter ocorrido e justificaria sua sensação de vazio, dificuldade em estabelecer contato, etc. Nos primeiros meses de vida de uma criança, do que ela precisa? A criança deve contar com a presença de uma mãe (ou cuidador (a)) firme, atenta, acolhedora, que saiba manipular o bebê. Outro ingrediente importante é uma boa dose de energia para fornecer sensação de segurança em um período tão vulnerável, onde sentir-se seguro é questão de vida ou morte.

A pimeira tarefa fundamental de uma mãe, no início da vida do bebê, é a de adaptar-se às necessidades do filho de tal modo que este sinta que é onipotente, que ele é quem está criando este mundo tão prazeroso. Ele sente fome, o leite aparece, sente cólica, vem uma mão quentinha em sua barriga. Isso acontece porque a mãe está muito sintonizada com seu bebê. Em um período onde há um grande mergulho em sensações, o sentimento de que o ambiente pode prover o que ele precisa para sobreviver é muito reconfortante.

Uma das principais características de saúde em uma pessoa é a capacidade de criar, ser criativo na maneira de viver. Saber que poderemos inventar e reinventar o mundo sempre que for preciso é fundamental. Caso hajam esses cuidados, então teremos uma pessoa que não pôde contar com alguém que possibilitasse essa vivência tão importante.

Suponhamos que esta mãe esteja muito preocupada, triste, ausente e não consiga estaradaptar-se às necessidades e urgências de seu filho. Aí, então, é estabelecida uma descontinuidade no processo de ser. Como o bebê ainda não utiliza a função mental para lidar com frustrações (não tem quase nenhuma ferramenta estruturada) sente uma angústia impensável, marca que permanecerá por toda vida, reaparecendo por meio de diversas decisões, pelo modo de levar a vida, pela descrença.

A falha neste estágio precoce do desenvolvimento pode culminar nos quadros patológicos mais graves que conhecemos. Este bebê é obrigado a adaptar-se aos humores e horários de sua mãe, ou seja, inicialmente tem que engolir tudo que vem do mundo, de bom e ruim, para sobreviver. Caso a falha não seja olhada, a mesma relação de submissão é estabelecida com o mundo. Aqui tem início o que D.W.Winicott chama de falso self social adaptativo.

Para atingir a capacidade de preocupar-se com o outro, para que haja uma verdadeira relação com a ética e com a moral é necessário que tenha tido uma boa condução na integração das orincipais funções. A pessoa pode continuar a se desenvolver intelectualmente, mentalmente, frequentar a escola, fazer faculdade, mas emocionalmente pode ter apenas poucos meses de vida, permanence paralizada, congelada naquele estágio.

Os relacionamentos posteriores serão submetidos as limitações desse estágio. Por exemplo, alguém que teve muito pouco exige demais do seu parceiro porque, emocionalmente, de fato necessita. Podem acontecer nas nossas vidas experiências tão significativas que acabam por promover a retomada do desenvolvimento emocional, o descongelamento deste estado.

Pensemos então que nada de significativo tenha ocorrido na vida dessas pessoas a ponto de fornecer uma estrutura necessária para introjeções de bom e mau, a própria capacidade em preocupar-se, etc. Ainda paralizadas emocionalmente, buscam desesperadamente alternativas para sobreviver a um mundo interno tão caótico. A opção (ou necessidade) de entrega a um regime autoritário, posteriormente, se torna tão frágil quanto a própria proposta do regime.

É importante compreendermos que assim como uma tentativa de suicídio, o fanatismo é uma tentativa desesperada de encontrar-se. A sensação de que tem alguém “olhando por você”, que controle do que você faz, que lhe passa valores e lhe forneça uma nova perspectiva de vida pode ser muito mais importante do que a proposta em si.

A questão aí é que como todas as tentativas de existir até então foram fracassadas este ser humano está, acima de tudo, faminto emocionalmente. Ele pensa alimentar-se e o regime finge que fornece uma espécie de alimento, ainda que venenoso. Como essa pessoa ainda não experimentou a própria autenticidade, não tem como verificar a qualidade do que lhe é oferecido.

Antes da reflexão vem a necessidade.

Por isso é tão comum que pessoas que se encontram tão intensamente vinculadas a um regime desse tipo suicidem com a queda do mesmo. Como se tivessem vestido uma roupa, mas confundido com a própria pele. A possibilidade de deparar-se novamente com o abismo entre o ser e o vir a ser, a ameaça de desintegração do self pode ser infinitamente mais assustadora que a própria morte.

23/11/2009

INIMIGOS PÚBLICOS

O filme americano “Inimigos Públicos” (Public Enemies, 2009), dirigido por Michael Mann, é uma adaptação do romance do mesmo nome escrito por Bryan Burrough. É ambientado quatro anos após a grande depressão, período em que o quadro social americano era de permeado por muita violência e criminalidade. Nesse cenário, o FBI começa a ganhar corpo e agentes são incentivados a agir de forma mais violenta que o usual para que a agência consiga seu espaço de destaque nos EUA.


Os personagens principais do filme são o agente especial do FBI, Melvin Purvis interpretado por Christian Bale, que persegue um famoso criminoso, John Dillinger, vivido por Johnny Depp. A trama apresenta elementos interessantes e atuais, como a semelhança entre as personalidades de muitos policiais, agentes e delinquentes.

John Dillinger
, conhecido assaltande de bancos, preserva uma a capacidade de preocupar-se com pessoas individualmente, à sua maneira. Não se trata de um psicopata, uma pessoa incapaz de sentir-se concernida por outra, mas alguém com um ódio dirigido ao sistema. Assalta bancos, desafia o FBI e, ao mesmo tempo, é capaz de amar e de se preocupar.

O agente Melvin Purvis, é encarregado de capturar Dillinger, enquanto é pressionado por J. Edgar Hoover, interpretado por Billy Crudup, um dos responsáveis por tornar o FBI a primeira agência federal de polícia do país. Todos são levados a encarar questões que os colocam em xeque com sua conduta e ética habitual.

Para atingir seu objetivo, o agente adota uma postura violenta no combate ao crime, ferindo os direitos humanos e adotando métodos independentes de ação que não correspondiam aos preceitos éticos do sistema. Dessa forma, o agente finge defender o sistema, utilizando-o para satisfazer uma necessidade pessoal e colocando em risco a integridade de algumas pessoas. Em outras palavras, assim como fazem psicopatas graves, o agente transgride, manipula, ainda que continue em "posse" dos conceitos de certo e errado, bom e mau.

Os agentes carregam uma imagem que foi montada em um alicerce falso, ou seja, o que poderiam ser constituir valores pessoais cedem espaço para prestígio pessoal (legitimação). E isso lhes transmite uma a sensação de que eles são reais, embora se sintam-se tão falsos, ocos, que qualquer atitude pode ser internamente justificada pela procura desesperada de legitimação.

Durante o filme, nos deparamos com duas personalidades capazes de manejar a ética de acordo com suas necessidades particulares, duas pessoas que buscam reconhecimento de formas extremamente parecidas, transgressoras, violentas.

O indivíduo anti-social possui uma ética muito particular, onde valores que consideramos essenciais são distorcidos, adaptados para uma personalidade com necessidades específicas. A agressividade, a transgressão e a perversão são características comuns a estes indivíduos.

Os atos anti-sociais podem assumir diversas formas, desde uma criança que rouba um doce ou faz xixi na cama, passando por um adolescente que pratica atos de vandalismo, por exemplo, a adultos que têm compulsão por compras, comem muito, mentem, manipulam, usam drogas, até aqueles que roubam, assaltam.

Vale ressaltar que o ato anti-social pode ser passageiro e que nem todas essas características isoladas configuram o quadro.

O INÍCIO DA CARREIRA ANTI-SOCIAL
Mas, por que um indivíduo desenvolve essa característica? Winnicott, psicanalista e pediatra inglês, observou durante muitos anos o desenvolvimento de indivíduos que sofreram privações ou ausências absolutas devido ao advento da II Guerra. Ele observou os diferentes distúrbios que apareceriam de acordo com falhas ocorridas em diferentes fases do desenvolvimento.

Este estudo constatou que indivíduos que tiveram um início de vida bom, até aproximadamente os 3 três meses de idade e, por algum motivo, perderam abruptamente este cuidado, até então essencial, desenvolvem uma sensação de que algo que era seu por direito, lhe foi tirado.

Nessa época do desenvolvimento, não existe argumentação, a sensacão é essa e não interessa se houve uma guerra, um falecimento, uma doença, não há uma mente que permita a elaboração de uma compreensão, há apenas sensações. Essas sensações podem ser tão intensas que permanecem registradas por toda vida, de maneira mais ou menos intensa, dependendo do que se segue depois.

Caso os cuidados sejam reestabelecidos, a tendência é que os atos desapareçam, mas, se continuarem falhos, esta criança não conseguirá se desvincular dessa sensação e fará de tudo para que o ambiente se refaça com ela, para que lhe devolvam aquilo que foi tomado.

O ato anti-social carrega uma mensagem, um recado. Embora a depressão esteja presente, este indivíduo não manifesta características introspectivas ou letárgicas, pelo contrário, está empenhado em transmitir sua mensagem, mesmo que para ele ainda não esteja tão claro do que precisa.

Em algumas falas, John Dillinger ilustra este pensamento “preciso recuperar o tempo perdido”. Ou seja, o tempo cronológico passou, mas emocionalmente ele ainda é uma criança muito brava, que sente ter sido lesada.

“Eu gosto de carros, roupas boas, uísque, baseball..." "Eu quero tudo agora, vou para onde quiser...”

Esse pensamento “eu quero tudo” é quase a mesma coisa que pensar “eu não quero nada”, querer tudo é não discriminar, não saber o que quer, agir por impulso.


Estas pessoas estão implorando por basicamente duas coisas: atenção e contenção. Não uma contenção apenas punitiva ou amor indiscriminado. Para funcionar as duas coisas devem estar interligadas. O abraço da mãe, a atenção, o contorno necessário para que ocorra um desenvlvimento sadio se perdeu, a pessoa só amadurecerá quando vivenciar aquilo que faltou. O abraço “perdido” da mãe cederá lugar às leis, aos braços fortes e às vezes esmagadores da prisão, dos hospitais psiquiátricos ou, com sorte, de um psicólogo ou psiquiatra.

08/09/2009

UP - Altas Aventuras

Este texto pode ser inadequado para quem ainda não viu o filme.

Uma das definições possíveis para a pessoa aventureira:
“Um aventureiro é uma pessoa que baseia a sua vida ou a sua fortuna em atos arriscados.”
A aventura é normalmente associada aos esportes radicais, que oferecem risco físico e psíquico. Provocam tanto a
sensação de medo como a vontade de superação dos limites internos e externos .


Tanto o medo quanto a coragem são apreciados pelas pessoas que praticam esses esportes. O medo pode paralizar ou ser vivido como uma oportunidade de superar os próprios limites e essa dinâmica pode fazer parte da vida de qualquer um de nós, no cotidiano.

Os esportes radicais são muito apreciados, mas vale lembrar que estas atividades envolvem planejamento, equipamentos específicos, fabricados para minimizar os riscos. Podemos marcar o dia e a hora do evento, contamos com pessoas treinadas, locais previamente escolhidos e relativamente seguros. Sabemos que aquela sensação irá durar determinado tempo. Podemos controlar as variáveis.

Há um outro lado do conceito de aventura, vivido pelos personagens do filme, que diz respeito a aventuras relacionadas às relações humanas, aos vínculos que estabelecemos ao longo da vida.

Não há como calcular os riscos envolvidos em uma relação, eles são muitos e diferentes. Como cada relação é como se fosse a única, tendo em vista que pessoas diferentes geram dinâmicas, vivências e despertam sentimentos direrentes, esses riscos podem não ser tão bem dimensionados . Não podemos prever nem o dia, nem a hora e nem adquirir os equipamentos necessários para eventuais surpresas, no que diz respeito a ataques invasivos ao nosso mundo interno .

Algumas vivências amorosas ou vínculos muito fortes de amizade (sem falar no materno e paterno!) podem gerar, dependendo da estrutura psíquica, um efeito tão devastador que podem fazer com que a pessoa elabore tantas defesas que penetrar novamente em seu mundo interno será um desafio.

Há outras pessoas que experimentam uma “morte em vida”, fechando qualquer possibilidade de vivenciar novamente uma dor tão grande e, consequentemente, não experimentando o lado bom da aventura.

O amor pode oferecer um grande risco e uma grande inspiração. Após sofrimentos profundos, é preciso muita coragem para baixar as defesas, relaxar e permitir que outra pessoa se aproxime daquilo que é mais “nosso”.

Mas, por quê, após machucadas em uma relação, muitas pessoas continuam a procurar, mesmo com novas defesas bem elaboradas, uma próxima relação? As defesas podem ser boas ou ruins. Podem nos afastar do mundo ou servir como um equipamento que nos proteje de riscos “maiores”. Podem ser adequadas ou inadequadas.

De qualquer maneira, fazemos o melhor que conseguimos naquele momento. Porém, temos a possibilidade, durante um processo de terapia ou de situações terapêuticas, de adequar nossas defesas a nosso favor, à nossa medida.

Existem pessoas que passam a vida sem conseguir esse relaxamento necessário para viver uma nova aventura, ficam apenas com uma fatia da vida. Mas, há aquelas que insistem e têm esperança de que algo muito bom seja vivido novamente. A esperança dessas pessoas não são genéticas, mas oriundas de experiências positivas, de desfechos positivos, que as fazem acreditar no seu poder de interferir no mundo e obter satisfação de suas necessidades.

A dependência relativa, pela qual uma relação saudável é permeada, pode ser sentida como libertadora, no sentido de aceitarmos nossa condição de incompletude e de que de um modo ou de outro seremos dependentes. Entretanto, também pode ser sentida com pavor.

ALTAS AVENTURAS

UP – Altas Aventuras é a nova animação da Pixar. Toda plástica visual é muito colorida, alegre, envolvente. A história, de acordo com um ponto de vista, é sobre a relação de quatro pessoas que nutrem seus espíritos aventureiros.

O desenrolar nos mostra como uma aventura pode ser perigosa se direcionada para vaidade, se o sentido inicial der lugar a um outro aspecto da natureza humana, aquele da pessoa que teve seu ego narcísico ferido, ou seja, foi ferida precocemente, emocionalmente. As pessoas que vivenciaram esses traumas caminham pela vida buscando situações onde possam remontá-lo e atribuir novos significados. Dependemos do outro para ser, da confirmação do outro.

Não somos sozinhos e, se alguém, nossos pais no início de nossas vidas, confirmaram e legitimaram nosso ser, nossa existência, de maneira honesta, legítima, sem muitas projeções, desejos individuais, mas a partir de um altruísmo, de uma observação real, não precisaríamos buscar tão vorazmente outra forma de validação no reconhecimento das pessoas ao longo da vida.

O personagem em questão, Charles Muntz, o antagonista do filme, buscou um caminho aparentemente saudável para lidar com sua “sede” de aprovação, de que fosse olhado como uma pessoa especial. Não escolheu ser aventureiro e nem se esforçou para ser um explorador famoso por acaso. A necessidade de ser visto e reconhecido pelas pessoas era mais forte do que parecia e a real motivação estaria relacionada com a falta de reconhecimento.

Onde há falta, há busca. Após ter sido injustamente difamado, ao afirmarem publicamente que uma de suas descobertas era falsa, ele passou a viver do outro lado, “o lado negro da força”, mas ainda com o mesmo objetivo. Sua ética até então sustentada pela sensação de reconhecimento, ruiu. Retirou-se do convívio com as pessoas, pois sem ser admirado, nada mais faria sentido e usou todos os seus recursos agindo de maneira inescrupulosa e cruel. Importante lembrar que para uma pessoa que experimentou a crueldade, exercer a crueldade pode dar muito prazer.

Experimentar como é ser o algoz estando do outro lado. O sadismo está intimamente relacionado com uma infância onde vivenciou o assédio de um sádico.

O Sr. Carl Fredricksen , um homem de 78 anos, vendedor de balões, tem uma história muito bonita. Seu primeiro e único amor foi a primeira grande aventura de sua vida. Ele ainda não havia percebido isso, pensava que uma aventura acontecesse somente em feitos extraordinários. Em toda sua vida, os feitos mais extraordinários não se resumiram na incrível viagem com balões, mas nas relações que corajosamente estabeleceu e que significaram cada ato de sua vida.

Sua relação com Russell, um menino de oito anos de idade, escoteiro/aventureiro, em busca da última medalha que precisava adquirir para virar um "grande aventureiro", transformou a vida de ambos.

A missão do garoto seria a de ajudar um velhinho, e escolheu (assim como foi escolhido) Carl Fredricksen. Um ajudou o outro de uma maneira inesperada. O garoto viveu com o velho uma relação de confiança, compreensão, reconhecimento, que nunca teve do pai. Esse seria o verdadeiro encontro que estava por trás da busca pela medalha.

No caso de Fredricksen, encontrou a mesma relação, estava disposto a doar-se, embora não tenha tido filhos. A aventura poderia levá-lo a morte, mas, como toda boa história, se surpreende com o que ainda a vida reserva para um velho disposto a viver o que seria sua última aventura.

28/08/2009

HOUSE M. D.

House é uma das séries de maior audiência em todo mundo. Exibida originalmente nos Estados Unidos pela Fox, no Brasil pode ser assistida no Universal Channel e na Rede Record.

Alguns ingredientes são garantia quase certa de sucesso, por pertencerem a aspectos da vida interna de cada um de nós: Dinâmicas de personalidade complexas, difíceis de definir por generalizações de bom e mau, mas indivíduos com características marcantes, sem uma moralidade tradicional, que cativam por suas especificidades.

Pessoas que desempenham muito bem seu lado profissional, mas emocionalmente imaturas, como tantos de nós. Realmente é mais fácil desenvolvermos nosso intelecto do que nossa maturidade emocional, já que essa depende da maturidade de quem nos cerca intimamente.

A medicina é uma profissão encantadora, que gera muita curiosidade. Os médicos de pronto atendimento, especialmente, lidam diariamente com a dor física e psíquica intensa, urgente, dos pacientes. Para tal, contam com seu conhecimento e com os tratamentos existentes na atualidade, que obviamente são limitados.

A maneira como o médico encara as questões relativas a vida e morte bem como lidam com o próprio sofrimento são cruciais na formação de sua capacidade para lidar com os sentimentos dos pacientes. Como não perder a humanidade, a empatia com o sofrimento do outro e, ao mesmo tempo, conseguir um distanciamento racional para lidar com a doença?

Muitos médicos adotam uma postura distanciada, como proteção. O pouco envolvimento com as questões do paciente pode poupá-lo da dor, mas o preço a pagar é o de tornar-se um médico medíocre, pois uma das coisas que um paciente mais precisa, seja no sofrimento físico ou psíquico, é a presença real de um ser humano capaz de compreender sua dor e tratá-lo integralmente.

A série se passa em um hospital escola e os principais personagens integram a equipe de diagnósticos liderada pelo Dr. Gregory House, interpretado pelo ator inglês, Hugh Laurie, um excelente médico no que diz respeito a montar quebra-cabeças no caso de diagnósticos difíceis.

Para apimentar o personagem, embora ele consiga identificar doenças raras e curar pacientes é incapaz de lidar com sua depressão de maneira sadia. Algumas pessoas consideram essa característica excitante, mas a questão é: O que tem de excitante nessa característica ? Penso que possa despertar, em alguns, a vontade de montar o quebra-cabeça mais difícil de todos, de usarmos nosso poder de sedução para descongelar sentimentos, o desejo pelo inatingível, o inatingível nos protege da entrega, pois o outro já estás defendido pelos dois.

A parte de si que ele mostra ao mundo, às pessoas, é resultado das defesas bem organizadas que ele teve que construir para sobreviver a algo que um dia ele teve, como amor, por exemplo, mas perdeu. Sabemos que ele já teve algum dia porque ele busca, e nós só buscamos o que sabemos ou pensamos existir. A elaboração do diagnóstico alheio pode ser o ensaio de uma busca pelo diagnóstico individual que vá curá-lo. A busca e o interesse são motivados pelo interesse individual em resolver enigmas, por trás está o seu próprio.

A defesa, neste caso, o protege de possíveis frustrações mas, ao mesmo tempo, o impede de vivenciar algo espontâneo, verdadeiro e que pode machucar, como provavelmente foi o que aconteceu em sua vida. Ele não quer uma reedição dos acontecimentos, mas uma vivência parecida com um final diferente.

Ele faz uso de auto medicação utilizando uma substância que fornece sensação de euforia, já que ele não deve suportar seu humor depressivo habitual. Porém, isso só alivia o sintoma, mas não trabalha a causa. Esta é uma de suas muletas emocionais que utiliza e, curiosamente, ele usa uma muleta-objeto para andar.

Um médico que não suporta sua própria dor e quer anestesiar-se não gosta mesmo de olhar nos olhos de um paciente e realizar um comunicado delicado, estabelecer uma conversa, uma conexão mais pessoal. Para isso ele utiliza suas muletas contratadas (Foreman, Chase, Cameron, Taub, Kutner e Remy "Treze" Hadley) para exercer essas tarefas “sujas” e outras com as quais ele tem dificuldade em lidar.

Introspectivo, depressivo, traumatizado, rude, agressivo (para manter uma distância emocional que considera segura) e com poucos momentos onde revela sua humanidade, sua sensibilidade. Ou seja, um ser humano machucado em busca de si, ou do que foi perdido, protegido pela profissão e pelo status, mas impulsionado pelo trauma profundo que o torna um médico genial. A dor pode criar formas incríveis, embora nem sempre saudáveis.

18/05/2009

STAR TREK

O filme de 2009, dirigido por J.J. Abrams é décimo-primeiro longa-metragem da franquia STAR TREK. Gira em torno dos principais personagens da série clássica, mas com um elenco completamente novo. Reinicia a série no cinema e acompanha a admissão de James T. Kirk, vivido por Chris Pine na Academia da Frota Estelar, seu primeiro encontro com Spock interpretado por Zachary Quinto e Leonard Nimoy, e suas batalhas com Romulanos provenientes do futuro.

Spock, meio humano, meio vulcano, representa a luta pela conquista da racionalidade em detrimento dos sentimentos e emoções. Suas decisões devem ser tomadas sem a interferência deste componente “demasiadamente humano”, a capacidade de sentir, envolver-se. Assim ele acredita, tenta perseguir esta segurança racional, mas é perseguido pelos seus componentes humanos que ganham cada vez mais espaço em sua vida.

Kirk contracena com Spock, representando um misto de espontaneidade, dúvida em relação ao rumo de sua vida e demonstrações fortes de emoção. Esses dois icônicos personagens podem ser compreendidos como representantes de recursos que possuímos (razão e envolvimento emocional) e permitem uma reflexão a respeito da maneira como estamos utilizando nossos próprios recursos.


KIRK e SPOCK

Seria preferível um mundo extremante estável e lógico ou instável pelo próprio caráter das emoções? Spock, como sempre representando o lado inteiramente racional, tantas vezes almejado para proteger-se das emoções, possui no entanto um "ponto fraco”, sua sensibilidade aos pais. Este seu "ponto fraco", ativado por Kirk no filme, salvou-o de si mesmo. Ao cair em contradição com seu EU racional, começou a integrar suas partes até então praticamente dissociadas.

Kirk representa a coragem, a independência. Externaliza emoções que ora atrapalham e ora podem ser o recurso mais importante a ser usado. Spock e Kirk, como foi dito anteriormente, são como o equilíbrio necessário para nossa sobrevivência.


QUEM ESCOLHE NOSSOS CAMINHOS ?

Um filme bastante masculino em quase todos os aspectos. Armas lasers, mísseis, saltos de avião, socos são coisas que estão presentes no filme e povoam o universo dos homens. Outro exemplo é a necessidade de superar o pai, um complexo de Édipo mal resolvido. Em determinado momento Kirk está indeciso em relação a qual caminho seguir em sua vida. Encontra-se em uma boa crise existencial. Percebendo este momento, o Capitão Christopher Pike, interpretado por Bruce Greenwood, o desafia, dizendo “Seu pai salvou 800 vidas, incluindo a sua. Te desafio a fazer melhor”.

Deste momento em diante Kirk é impulsionado quase que exclusivamente a superar seu pai, sentimento que está por trás de muitas de suas ações. Coloca a própriavida em risco (embora ele de fato já colocasse, mas isso envolve outros fatores), destrói naves inimigas, coloca-se em situações limite, pensa que para que sua existência valha a pena, tem que cumprir este objetivo.

É um bom momento para pensarmos em que realmente nos move e a importância dos nossos pais internos em nossa vida pessoal, ou seja, percorreremos sempre algo que foi esperado de nós ou ainda mais sutil, algo que é esperado, porém velado? Dependendo do nosso desempenho, podemos perceber a aceitação, a aprovação, a validação das pessoas que amamos. É um dilema, pois o preço a pagar pode ser o de levar uma vida para atingir recompensa emocinal. Simbolicamente, era isso que Kirk buscava.

Será que realmente escolhemos nossos caminhos ou muitas escolhas são influenciadas por outras motivações, as quais desconhecemos? Sempre aconselho que olhemos para nossas ações, pensamentos, escolhas e identifiquemos o que está a mais e o que está faltando.

O que é cultural, biológico, familiar, vivenciado, deve ser resignificado para nosso crescimento. É preciso separar o joio do trigo, o que é nosso e o que nossos pais e a sociedade esperam que sejamos ou desempenhemos.


UM FILME SOBRE MENINOS E HOMENS

Vamos começar pensando no corpo do homem, biologicamente muito diferente do da mulher. Seria por acaso? Creio que não. Os órgãos genitais do homem são projetados para fora, os da mulher todos para dentro.

A principal função biológica masculina durante ato sexual é a de penetrar e enviar espermatozóides para fecundação do óvulo. As brincadeiras favoritas dos homens estão intimamente associadas a esse corpo. Naves espaciais projetam-se no espaço, batem, adquirem velocidade. Armas atiram balas, lasers, torpedos. No futebol, o objetivo é chutar a bola para rede, fazer o gol, driblando adversários e obtendo reconhecimento de sua masculinidade. Poderia citar muitos outros jogos como sinuca ou golfe, onde também o objetivo é o de acertar a bola em um bucaco minúsculo.

Desde que nos fixamos terrirtorialmente, o homem assumiu a função de caçar, matar animais para alimentação, arriscar-se, fabricar lanças, projetar-se. A mulher engravidava, menstruava, isso a impedia de ser tão eficiente nesta função.

Com o passar das fases do desenvolvimento, o homem adquire um certo refinamento para dar forma a esse comportamento sem ferir seu status social. A agressividade nos negócios, fechar um bom contrato, andar em alta velocidade em um carro que confira poder e status. A tendência a subjulgar a mulher, talvez com medo de que sua masculinidades seja ameaçada.

Com o papel das mulheres na sociedade sofrendo ajustes, elas acabam aprimorando muitas características consideradas masculinas e executando tarefas antes improváveis de serem executadas por elas. Tarefas que podem agregar poder, agressividade, virilidade. Acredito que estes ajustes têm grande repercussão nos relacionamentos e nos papéis desempenham.

No início da série em 1965, Gene Roddenberry, o criador de Star Trek até que tentou usar uma Primeiro Oficial mulher, mas a idéia era muito inovadora para a época e os executivos da NBC não estavam preparados para ver uma mulher em posição de comando.

Todos possuímos características masculinas e femininas, somos humanos. Isso deveria nos aliviar muito, não termos que ser heroínas ou heróis, mas apenas ser o que é possível e com sorte e muita busca, encontrar nosso EU real. Aquele a quem ninguém legitimou, mas pede para ter espaço.

Não é preciso ser o melhor, dar conta de tudo e salvar vidas. Salvando a nós mesmos (uma tarefa e tanto) naturalmente já serviríamos de inspiração. No entanto, talvez este não seja o objetivo, não é?

Vida longa e prosperidade a todos!

17/05/2009

ANSIEDADE

Todos sentimos ansiedade. Um professor de psicologia nos disse na faculdade " para identificar a ansiedade e diferenciar da angústia, preste atenção: ansiedade provoca dor e sensação de peso nos ombros, já a angústia, no estômago e na garganta".

A ansiedade tem uma função e em um nível moderado, pode ser saudável, pois nos permite executar planejamentos, avançar, nos preparar. Porém, nem todos somos portadores do Transtorno de Ansiedade. A ansiedade tem sua origem calcada em uma pré disposição genética aliada a fatores ambientais precoces que a intensificam. Separação precoce dos pais, situações onde a criança não tinha suporte psiíquico para elaboração, morte dos pais antes dos 17 anos e ocorrências traumaticas que fazem com que a ansiedade seja uma defesa "contra um mundo ou contra pessoas que já tiraram-lhe o chão".

Como a ansiedade se manifesta?

A ansiedade pode se manifestar por meio de rituais compulsivos, pensamentos obsessivos, agorafobia (medo de enfrentar situações onde possa ser embaraçoso sair), ataque de pânico (sudorese, tremor, desfalecimento, taquicardia) e sempre precedida por situações que são significativas e ativam o trauma em questão.

"Anxiety" Edvard Munch, 1894


Os rituais compulsivos apresentam-se com a finalidade de acalmar a ansiedade. Em um estudo Americano a incidência deste transtorno em mulheres que engravidam é maior do que o restante da população, principalmente no que diz respeito a higiene excessiva, preocupação com germes e bactérias, entre outros. Momentos tão significativos, que exigem uma mudança exterior para adaptar-se a chegada do bebê e mudanças internas para que ele seja atendido em suas necessidades. Quando a mãe passa por conflitos em relação a esta condição, pratica rituais que acredita serem importantes, mas são uma projeção de um medo ainda não consciente.

Os ataques de pânico são uma resposta somática (integração psique-corpo) a uma situação temida, anteriormente vivenciada e mal sucedida. O temor de que essa sitiuacão seja revivida é o que impulsiona as reações corporais e de ansiedade, medo. O corpo transforma-se em um alarme, pois a psiquê envia mensagens, mesmo que inconscientes, de que um grande perigo pode ocorrer. O corpo prepara-se para isso.

As fobias, “medos específicos” são uma forma de deslocamento da ansiedade para algo externo.

Medo de falar em público e ser humilhado, medo de insetos que, magicamente podem ser muito perigosos e de fato não são.

As fobias tem sua origem na infância remota, onde as figuras internalizadas colocavam a criança em situações vexamosas ou a riducularizavam, apresentavam situações cuja crença de que ela não seria capaz de lidar, era forte e constante.

A ansiedade é a antecipação de um evento, colorido com nossas fantasias. Até os nossos receptores neuronais ficam mais sensíveis a determinadas situações, quando essas são tão intensas que se configuram em trauma.

A cura para ansiedade é o encontro da origem do problema e sua resignificação.

A terapia pode ser suficiente, embora em determinados casos seja necessário o uso de medicamentos a fim de baixar a ansiedade para que estes sentimentos possam aflorar e serem trabalhados, para que o paciente suporte a terapia e as dores que serão trabalhadas.

"The Scream" Edvard Munch, 1893

Penso que ao se dar conta desta característia, saber sua intensidade e a repercussão em sua vida amorosa, profissional, já seja um bom começo para a mudança interior. Observar em quais momentos ocorrem manifestações de ansiedade já é um bom começo.

05/05/2009

I DREAMED A DREAM

Susan Boyle apresentou-se no programa Britain's Got Talent, uma espécie de American Idol inglês, no início de 2009. Moradora de um conglomerado de vilarejos, apresentando atitude incomum, gagejando e expondo sua confusão. No entanto, soube de maneira emocionante como alcançar o caminho árduo que leva a encontrar o que há de mais belo, puro e verdadeiro dentro de si, desbancando a expectativa dos apresentadores do programa.

Nossa cultura está voltada para jovens bem sucedidos, bonitos, saudáveis e promissores. Aqueles que “entram na roda do mundo” e ajudam a manter o sistema em andamento. Estes jovens, adultos, muitas vezes se adaptam e são “saudáveis”, mas podem não saber exatamente o preço que pagam por essa adaptação.

Temos que carregar o nosso ser e nosso ser social. O problema é que muitas pessoas não sabem qual é essa diferença.

Susan Boyle é uma senhora que dedicou sua vida para cuidar do pai e exercer tarefas marginais (não muito valorizadas socialmente) e ainda por cima, é portadora de problemas cognitivos adquiridos durante o nascimento.

Ela quebrou todas as barreiras sociais, atingindo em si o que não foi corrompido: a esperança. Esperança de pertencer, de ser admirada, sentir-se importante, capaz de encantar-se consigo e com o outro.

A música escolhida por Susan para o programa foi I Dreamed a Dream, do musical Os Miseráveis. Na peça ela é cantada pela personagem Fantini, durante o primeiro ato. Como a letra diz, ela deve ter tido muitos sonhos, mas a vida “rasgou sua esperança em pedaços… vergonha”.

Naquele mesmo dia ela reuniu o significado de sua vida, até então vivida “em silêncio”, enfrentou os jurados, “tigres”, seus medos, sua autoestima e a esperança de que a vida pudesse ser diferente.

Os sonhos possíveis nem sempre são os que esperam de nós, mas sim nossa verdadeira vocação para essa vida, o que temos de realmente valioso a dar.

Será que todos sabemos e tivemos contato com essa essência mais verdadeira que tão cedo ja é corrompida tanto pelos nossos familiares quanto pelo sistema? Temos um espaço onde nosso ser possa ser expresso em sua plenitude, ainda que simbólico? Ela tem. Esse é seu maior tesouro, saber quem é ou ter uma pista muito acertiva de sua essência e de sua busca.

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Se você ainda não viu o video, clique no link abaixo:
"Susan Boyle - Britains's Got Talent"
(Legandado em Português)


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"I DREAMED A DREAM" - Eu Sonhei um Sonho
Claude-Michel Schönberg, Herbert Kretzmer, libretto & Alain Boublil.

Eu tive um sonho num tempo que já se foi

Quando esperanças eram elevadas e valia a pena viver
Eu sonhei que o amor nunca morreria
Eu sonhei que Deus estaria perdoando

Então eu era jovem e destemida
Quando sonhos eram feitos e usados e perdidos
Não havia nenhum resgate a ser pago
Nenhuma canção desconhecida, nenhum vinho intocado

Mas os tigres chegaram à noite
Com suas vozes suaves como trovão
Tal como eles rasgam sua esperança em pedaços
Tal como eles transformam seus sonhos em vergonha

E ainda sonho com ele vindo até a mim
E nós viveríamos juntos os anos
Mas há sonhos que não podem acontecer
E há tempestades que não podemos desafiar

Eu tive um sonho que minha vida iria ser
Tão diferente deste inferno que estou vivendo
Tão diferente agora do que parecia
Agora a vida matou o sonho que tive


23/04/2009

A MORTE PEDE CARONA

Este post pode ser inadequado para quem ainda não viu o filme!

Dirigido por Robert Harmon em 1986, o filme mostra um personagem psicopata cansado de caminhar, como se a estrada de sua vida não tivesse fim, pelo menos para ele. Um garoto normal contracena com ele enquanto o encontro entre os dois muda todo cenário interno no qual vivem. Talvez por isso, por tantas transformações internas, o cenário externo do filme seja contínuo (a estrada). Afinal o mundo pode muito bem ser um cenário onde as pessoas e circunstâncias nos impelem a formar defesas, medos ou crescer, ter interesse pela vida. Tudo sempre dependendo das relações que estabelecemos ou temos que lidar.

Jim Halsey, vivido por C. Thomas Howell, tem de atravessar os EUA pela rota 66 para entregar um carro na California. Durante a viagem, após quase ter sofrido um acidente devido ao sono, decide aceitar o pedido de carona de um desconhecido. O carona, Jonh Ryder, interpretado por Rutger Hauer, é um personagem psicopata que está também a procura de algo nessa mesma estrada, mas certamente a busca é bem distinta. Jonh Ryder encontra-se em uma "estrada sem fim" e precisava ter um destino, encontrar um sentido nem que fosse na imposição de um limite imposto pelo outro, mas forçado por ele próprio.

Quando o motorista pergunta a J. Ryder "O que você quer?", ele responde "Quero que você me pare". E é verdade, só precisaria preparar Jim para a tarefa. Com a faca no pescoço de Jim Halsey ele diz "Diga: Eu quero morrer". Após um momento de tensão, Halsey não consegue pedir, pois a possibilidade nunca havia lhe ocorrido. Embora empurre J. Ryder do carro nesse momento, não consegue escapar dele durante todo o resto do filme.

Em determinado momento, após ter passado por tantas situações limite provocadas por J. Ryder, Halsey chega até a apontar a arma contra si mesmo, quase enlouquece. Seria isso que Ryder queria realmente? Sentiria ele uma depressão tão grande, um vazio, como uma vida cheia de estradas que não levam a lugar algum, se não ao de ter prazer em ver no rosto do outro o que ele próprio sofreu? Esse é o ciclo vicioso do psicopata e ele elegeu alguém para fazê-lo chegar a algum lugar, nesse caso, a morte como último recurso de "descansar" de uma vida interna insuportável.


A ESTRADA
O filme se passa na Rota 66, ou seja, em uma estrada. Uma estrada pressupõe uma direção, foram construídas para facilitar ou possibilitar saídas e chegadas para os mais diversos fins (comércio, cultura, diversão...).

Podemos pensar na nossa vida como uma grande estrada, mas não sabemos a origem nem o ponto de chegada (concretamente a morte). Historicamente estamos dentro de uma linha de evolução (biológica, intelectual, ética), passamos um período na Terra, vivenciando obrigatoriamente o tempo histórico em que fomos "lançados" e caminhamos para o nada, o desconhecido. Preenchemos este "nada" com as mais diversas crenças, de acordo com a suportabilidade da dúvida em relação ao nada ou algo que dê continuidade ao nosso ser.


O PSICOPATA
Para entender um pouco melhor o funcionamento da mente do personagem Jonh Ryder, é importante ressaltar que o psicopata é um ser humano que nasce potencialmente normal e que tem seu desenvolvimento emocional gravemente comprometido no que diz respeito ao relacionamento com o outro e com as próprias emoções.

Numa escala evolutiva, um garoto pode ter atitudes anti-sociais toleradas que movimentam o ambiente (pequenos roubos, mentiras) e, se bem manejado, ter seu desenvolvimento posterior no nível da normalidade, pois por trás destes atos existe uma denúncia de algo que "não vai bem" mas ainda não é "verbalizável", portanto uma esperança de que alguém lhe dê o que falta.

Pode ser que este mesmo garoto, nestas condições e em um ambiente que não perceba essas "denúncias" evolua para um quadro mais grave, como um anti-social adulto, posteriormente um delinquente que usufrui dos ganhos secundários oferecidos por esta dinâmica de vida.

Pode ocorrer , após tantos atos repetidos e vivências muito destrutivas a formação de uma patologia mais grave ainda, a psicopatia, que estaria no outro extremo da escala.

A agressividade, o tumulto ambiental, a transgressão são todas características presentes nestes casos. Porém, o que difere o psicopata de um anti-social é a falta total de conexão com as emoções, uma impossibilidade de sentir-se comovido, ter empatia, colocar-se no lugar do outro.

O idivíduo que apresenta essa patologia compreende o mundo e sua engrenagem, são capazes de aprender, memorizar, raciocinar, trabalhar, ganhar dinheiro, mas também são, ou tornam-se incapazes de envolver-se emocionalmente. O único envolvimento possível é numa situação onde esteja em um extremo e a outra pessoa no outro, de preferência numa posição de comando, controle, onde possa experimentar o terror do outro com uma grande satisfação (sadismo), alimentando assim seu ego narcísico (um narciso ferido, que fere).

Toda sua capacidade intelectual está direcionada para atender as suas inquietações, mas os atos podem ser planejados e programados com bastante inteligência, pois a pessoa que apresenta esse transtorno tem essa capacidade de parecer "normal" e sabe que seus "desejos" não são aceitos socialmente, portanto manipulam situações para saciar-se e, ao mesmo tempo, não ser preso ou descoberto. Diferente do traço de personalidade anti-social, que faz "muito barulho" e pede um limite mais claros, pois tem mais esperança que os policiais, vizinhos ou tutores dêem o que lhes foi tirado emocionalmente. Já os psicopatas não atuam esta esperança, são mais "isolados" em seus atos, o que mostra sua solidão perante aos interesses e dinâmicas das outras pessoas.

Embora o psicopata saiba o que fazer, saiba o que esperam dele, o que ele esperaria da vida, das pessoas?

Sabemos que nesses casos a necessidade não é consciente, pois houve um "não acontecido" ou algum (s) evento(s) tão traumáticos que ficaram separados de sua personalidade, mas estão vivos por meio de suas atitudes aparentemente sem sentido e extremamente impulsivas.

O que o impulsiona é a mentira, a sensação de controle, de sair ileso de situações limite, de visualizar o terror sem que as emoções normalmente mobilizadas nas pessoas o invadam, pelo contrário, alimentam um ego narcísico, uma falta enorme de auto-estima, de cuidado.

17/04/2009

OS INFILTRADOS

"Os Infiltrados", o filme de 2006, dirigido por Martin Scorsese conta com um elenco muito competente, Leonardo DiCaprio, Matt Damon, Jack Nicholson, Mark Wahlberg, Martin Sheen, Ray Winstone e Alec Baldwin entre outros.

Trata-se da vida de duas pessoas em condições aparentemente opostas, mas completamente entrelaçadas e com a personalidade bastante parecidas. O ladrão e a polícia, o bem e o mal, um infiltrado da polícia com crise de identidade e um policial com personalidade dupla (cindida).

Isso nos remete a um tema polêmico: O psicopata agindo socialmente em paralelo a uma vida que acredita ser "mais verdadeira", por mais ilegal ou imoral que seja. O policial agindo a favor da lei e da moral, mas com um vazio interno que não absorviam a lei e a moral, se modo que permanecia infeliz, fútil e, deste modo, arriscando a própria vida, pois como dizem muitas pessoas anti-sociais "matar ou morrer, tanto faz". Imaginem a depressão que está no fundo dessa personalidade.

Algumas falas são muito interessantes. Francis "Frank" Costello, interpretado por Jack Nicholson fala claramente sobre a mente anti-social e sua estrutura de pensamento, sua lógica particular, "Não quero ser um produto do meu ambiente, o meu ambiente que seja produto de mim" - alguém que tem um sentimento de que o mundo está em dívida, e ele "rouba" do mundo o que o mundo "roubou dele". Leia-se roubo como a privação do amor, carinho, atenção, coisas básicas para que alguém sinta o sentido da vida.

Nessa mesma linha de pensamernto ele continua:

"Se há algo que tenho contra os negros é que ninguém lhes dá vantagem, é preciso pegá-la... Ninguém lhe dá um caminho, você tem que tomá-lo".

Mais uma vez projeta a falta de sentido que atribui à própria vida.

Se a vida "aponta uma arma pra você", ou seja, se não há escolha que valha a pena "qual a diferença?", diz Frank Costello logo no início do filme.

William Costigan Jr, vivido por Leonardo Di Caprio foi escolhido pela polícia para ser um infiltrado, alguém que não assume a identidade de policial socialmente, mas age de acordo com os interesses da polícia. Durante o processo de triagem, os policiais o escolheram pela "vida dupla" que sempre levou, pelo "falso self adaptativo", aquela máscara social que é muito desenvolvida em algumas pessoas, pois precisaram usar muito para sobreviver e pouco utilizada por pessoas que conseguiram viver sua verdade por meio de pessoas verdadeiras.

Os policiais diziam que o sistema precisava de uma pessoa adaptável, ou seja, a mesma máscara que ele utilizava como defesa definiu sua personalidade e, ao mesmo tempo, poderia tornar-se uma arma e/ou uma salvação. Foi essa "flexibilidade", essa habilidade em andar pelo mundo não sendo quem é, que o tornou apto a realizar uma tarefa legal, agindo aparentemente ilegalmente.

O próprio sistema alimenta e precisa de pessoas cindidas, embora esse traço não seja sempre saudável.

Esse filme me remete aos testes psicológicos aplicados em policiais e pessoas que cometem os mais diversos delitos. Os perfis são quase idênticos. A disposição para "matar ou morrer", a vida como algo efêmero, a falta de sentido que os faz procurar situações limite. Opostos, aparentemente, mas com o fundamental em comum, uma vida emocional pobre, vazia e a busca de sentido por meio da adrenalina e da sensação de que tal função os define.