Sideways, "Entre Umas e Outras" comédia de 2004 dirigida por Alexandre Payne, ganhador do Oscar na categoria de melhor roteiro adaptado e do Globo de Ouro pelo melhor roteiro e melhor filme.Miles (Paul Giamatti), recém separado, leva seu amigo Jack (Thomas Haden Church), prestes a se casar, para uma excêntrica viagem pelas vinículas da costa da Califórnia. Miles é um professor de ensino médio que tenta publicar seu livro intitulado "O dia Dia Depois de Ontem" para então deixar de lecionar na esperança "tornar-se" um escritor "de verdade". Amarga o término de seu casamento adotando uma postura depressiva e desesperançosa em relação a vida.
Jack é ator e emprestou a voz a alguns comerciais de sucesso, mas também não parece muito satisfeito com sua carreira aparentemente encalhada. Sendo esta a semana que antecede seu casamento ele pretende aproveitar ao máximo, não apenas os diferentes tipos de vinhos.
No início da viagem já temos uma amostra da interação dessas personalidades tão diferentes: conflitos, choques e muito humor. Jack está decidido a fazer com que o amigo se afaste, mesmo que momentaneamente, do luto mal elaborado que o deixa ancorado ao passado e Miles resiste à proposta até onde pode.Prazeres conhecidos em ambientes controlados são uma boa opção para pessoas que estão muito machucadas emocionalmente. Experimentar as sensações que um bom vinho pode trazer não pressupõe grandes riscos. Já uma relação (amizade, namoro), quando bem sucedida, pode nos levar por caminhos ainda inexplorados.
A partir daqui, este texto pode ser inadequado para quem ainda não assistiu ao filme.
A experiência é uma verdadeira relacão, com começo (expectativa, excitação), meio (os sentidos são invadidos) e fim (discrimana-se a vivência e esta é sempre singular). Quando finaliza o ritual olha para Jack, que encena acompanhar o amigo, mas a farsa logo termina quando Miles percebe que Jack estava mascando chicletes durante toda degustação.E a viagem continua. Os amigos aventuram-se não apenas na descoberta de novos vinhos e seus sabores, mas vivem paralelamente duas experiências amorosas. Cada um degusta a sua maneira.
Jack mantém o mesmo padrão de comportamento tanto ao mascar chicletes durante a degustação de vinhos (praticamente anulando a experiência) quanto ao fingir uma profundidade na nova relação. "Engole" o que este romance tem a oferecer sem nenhuma pausa para "oxigenação". Imagino que essa seria sua proposta, uma viviencia superficial, as pausas são da natureza de relações verdadeiras. É preciso de tempo para encontrar a "fermentação necessária" que caracteriza uma relação autêntica.

Já as longas pausas de Miles diante deste novo romance podem ser angustiantes para quem assiste. O filme levanta a reflexão sobre a importância da atitude de pararmos perante um evento significativo para que possamos vivenciá-lo integralmente. Em um diálogo muito bonito com Maya, vivida por Virginia Madsen, o vinho transforma-se em uma metáfora poética sobre a importância de habitarmos o único tempo possível, o agora:
"A Pinot é uma uva difícil de cultivar... a casca é fina, é temperamental... não é uma sobrevivente como a Cabernet, que pode crescer em qualquer lugar, mesmo negligenciada..."
"A Pinot precisa de cuidado e atenção, só consegue crescer em locais bastante específicos... somente alguém que se dá ao trabalho de entender o potencial da Pinot pode fazê-la atingir seu grau máximo de expressão e então seus sabores são os mais sedutores, brilhantes, excitantes, sutis..."
Ou seja, só podemos ser e expressar nossas mais sutis e profundas características em determinadas circunstâncias, diante de uma pessoa que forneça segurança, acolhimento, compreensão. Um olhar interessado, apaixonado, que legitima e convida. Porém, a contemplação é apenas uma parte do processo, a outra é a ação, refere-se a possibilidade de dar vida e compartilhar o que antes era solitário e individual. Maya diz, como metáfora, a maneira com que Miles lidava com a própria vida e com o tempo:
"O que eu gosto em uma garrafa de vinho é o fato dela estar, de fato viva, ganhando complexidade até chegar no seu auge e então começar seu contínuo e inevitável declínio"
O perigo, nesse caso, seria a tentação de permanecer nesse estado "autista", onde há uma preferência em estabelecer relações com objetos (vinho, restaurante, livros, filmes) e afastar-se da convivência com outras pessoas, estabelecendo assim um novo padrão de vida possível.
Assim como o vinho, vivo e em constante movimento e transformação, a vida e suas possibilidades continuam. A difícil tarefa de estar no espaço e no tempo que pertencem ao "agora", sem perder de vista a reflexão necessária sobre o passado (que pode nos orientar no presente) bem como um planejamento suficientemente flexível para o futuro, é uma das mais difíceis equações que o ser humano deve realizar.
Pensar e agir no justo tempo pressupõe maturidade e só atingimos a maturidade depois de termos vivido uma experiência de entrega, cuidado, confiabilidade. Não escolhemos ou decidimos atingir esse estado, ele depende de um outro ser humano que nos possibilite o crescimento, afinal somos, a princípio, muito delicados e temperamentais.
Com o tempo o "sabor" das relações muda o "paladar" de cada um, mas nada muda a origem da uva, o que ela é essencialmente. Uma Pinot, por mais que o tempo passe, não se tornará uma Cabernet e vice e versa. Metaforicamente podemos pensar na procedência do vinho como nosso verdadeiro self . Este sempre estará lá, mais ou menos exposto, protegido ou não pelo falso self e algumas pessoas nos ajudaram e ajudarão a tocar essa nossa face muito de perto, deste contato nascem nossas experiências mais significativas e transformadoras.O outro nos leva a profundidade do nosso ser. Nossas experiências tocam pontos antes obscuros e, não fosse por ela, para sempre intocados. A vivência da entrega e do processo de relaxamento na presença de outra pessoa pode ser dolorida, enriquecedora, prazerosa e despertar tantas emoções e sensações quanto for possível para um ser humano. Acredito que enquanto formos humanos essa é a única possibilidade de nos tornarmos, não mais bonitos ou felizes apenas, mas nos sentirmos reais.





































































